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Cr 004 - O Evento dos Estudantes

Sinto imensa alegria e gratidão por esta cidade de Iguape, em especial pelo acolhimento da minha família, moradora nesta desde 1974. Recebeu minha família e a proveu de instalações e professores para nossa educação, pois no ano seguinte, iniciei meus estudos no Vaz Caminha.

Sempre me orgulhei de ter lá estudado, dos amigos que surgiram naqueles quatro anos e dos quatro maravilhosos professores com os quais convivi. O nome da escola presta homenagem ao autor da suposta Primeira Carta realizada em nosso território, Pero Vaz de Caminha, e também este fato me deixa feliz.

É adorável viver num local onde possuimos raízes. Hoje vejo meus filhos estudarem em escolas onde já estudei; em cada oportunidade de lá encontrá-los, ou participar de eventos em suas escolas, compartilho das suas realizações, sentindo o ambiente em que passam boa parte dos seus dias. Fico muito grato pelas boas lembranças que as salas e os páteos me reservam.

Outro dia estava no portão da escola esperando pela minha filha. Pude ouvir uma música que as crianças ensaiavam, preparando-se para um evento na escola. Um trecho final dizia: “eu aprendi a dividir o Amor”. A música é linda, numa ode à harmonia, ao carinho e respeito entre professores e alunos. 

Fiquei muito contente, imaginando que as raízes para uma convivência respeitosa estavam se firmando em meio àquelas pessoas. As crianças buscam pelo carinho, respeito e harmonia em seus ambientes, tal como quaisquer outros seres humanos, independentemente da idade, desejando simplesmente a paz. Mesmo ao longe, pelo som das alegres vozes, percebia a interação daquelas que ensinavam com as aprendizes.

Quem resiste ao convite duma pequenina sorridente, dizendo “Pai, você trabalha amanhã de tarde? Não? Vem na Escola!”. E assim recebi um bilhetinho mimiografado: “Senhores Pais (...) comparecer (...) dia 12/03/04 às 16:30(sic), (...) sobre uniforme(...)”. 

No dia seguinte, próximo ao horário chovia o bastante para me atrasar por alguns minutos; assim, quando cheguei, estava apreensivo pelo atraso. Alguns pais espalhavam-se ao acaso e as crianças esperavam em pé, distribuidas em diversas filas por sala. 

Estavam no patéo onde lhes servem a merenda, de costas para o pequeno palco e voltadas em direção a cozinha. Todos aguardavam alguém chegar e a insatisfação era crescente.

Era passado mais de 50 minutos do horário quando finalmente um ilustre convidado apareceu. O Senhor Prefeito Cabral lá chegava. Após anunciado a presença da autoridade, iniciaram a cerimônia. Seguiram-se alguns discursos, por parte da direção da escola. 

Houve também um discurso do Senhor Prefeito, obviamente dirigido aos pais, pois a linguagem era a mais distante possível do coração das crianças. Depois, simbolicamente, entregaram uniformes e mochilas para algumas crianças. Naquele momento, elas completavam uma hora e meia que estavam em pé enfileiradas. 

No entanto, superando o mau humor, conseguiram entoar alegremente a canção ao final, porque aprenderam a “dividir o amor”. Logo após, voltaram à sala de aula, onde o restante dos kits, com mochila e uniformes, foi entregue.

É público e notório que a Municipalização do Ensino ocorre com o repasse de verbas oriundas de nossos impostos, mas, não deixemos de considerar a entrega realizada como uma adequada destinação orçamentária do Município.

 O evento demonstrou a vitória das crianças, que ultrapassaram o cansaço e bradaram com suas poderosas vozes, com rostos felizes e em alto e bom som: “eu aprendi a dividir o amor”.

Cr 003 - Sim, Quero-Quero, te quero vivo!


Um sol agradável numa tarde de agosto, na Praia do Araçá em Ilha Comprida, Litoral Sul de São Paulo. Sentei-me na areia, a espreitar ondas, nuvens, pássaros... As espumas nas águas pareciam-se com as de champanhe; o mar brindava a terra, em cada onda que chegava à costa. As águas geladas, típicas dessa época do ano, não instigavam mergulhos. Nessas ocasiões é adorável contemplar a natureza, senti-la de perto.

Quero-Queros, Gaivotas... Pássaros lindos, em seu habitat natural. Eu estava só, num raio de mais de um quilômetro. Fiquei imóvel por algum tempo, aos poucos os pássaros estavam cada vez mais próximos - não se incomodavam com a minha presença. Soprava um vento frio de sudeste enquanto o sol me aquecia. O barulho do mar ajudava-me a ter uma sensação de sonolência. Invadia-me um início de sono; meio-acordado, quase dormindo - a meio do caminho dos sonhos. Deitei-me na areia e algumas nuvens mostravam-se como um acolchoado. Olhei para o céu. Os raios do sol provocavam calor entre o meu corpo e o acolchoado das nuvens. Integrado. Essa impressão me tomou por inteiro, remetendo-me a uma experiência linda.

Um Quero-Quero piava insistentemente, enquanto corria de lá pra cá a minha frente. Não podia compreender... O que este bicho quer? Continuei imóvel, pacientemente observando. Levantei então algumas suspeitas. Será que me sentei sobre algum ninho? É, alguns pássaros destas praias tem ninhos sobre as vegetações rasteiras nestas dunas aqui próximas. Não, estou afastado das dunas. O que será? Será que tem algum alimento embaixo de onde estou? Não, estou um pouco além do trecho em que a água se espraia, e é lá que eles pegam suas presas. Aos poucos seus chilreios não formulavam mais perguntas. Tudo bem... Se ele quer ficar piando, esteja à vontade. No que me desprendi do seu barulho e de sua excitação de frenéticos zigue-zagues, aumentou aquela sensação de torpor – profunda sonolência...
— Moço, moço, moço!

Uma voz fina, lindamente aguda. De onde vem? Olhei, com aquela lentidão dos quase-adormecidos. Não vi ninguém.
— Ei, sou eu, aqui a sua frente. Olha, queria te fa...

Quando olhei para o Quero-Quero, tentando entendê-lo, apenas ouvi seu som característico. O final da frase já não compreendi. Achei que estava sonhando acordado. Fitei as nuvens e senti novamente o calor do sol...

Outra vez ouvia-o, a meu modo, no que talvez fosse o início de um diálogo, desses existentes só em nossas consciências. Entreguei-me àquele sentimento e me permiti ouvi-lo.
— Ô moço, fique quietinho assim, como estava. Com teu coração – e somente com ele – poderá me escutar. Olha, sou apenas um Quero-Quero, como assim me chamam por aqui. Existo em várias partes do mundo, em diversos formatos e tamanhos. Sou também a vida que está em você. Somos a mesma coisa, eu e você... Simplesmente somos a Vida. Somos o mar, a terra, aquela espuma... E, até aquelas dunas, também somos nós. A Vida se manifesta em todas as formas e sou apenas uma delas. Vim te falar do quanto preciso das dunas. É um pedido sim, além de uma queixa... Hoje à noite, na madrugada, aquecia meus ovos, em meu ninho nas dunas. A vegetação rasteira das dunas é excelente para mantê-los. Sabe o que aconteceu? Vieram máquinas e removeram-na, destruindo toda a minha família... Não é a primeira vez. Observou como as dunas estão diminuindo? A cada dia, mais e mais dunas desaparecem...

Ele parou um pouco, como se respirasse. Suas palavras eram rápidas, talvez em razão do desespero pela perda da família. Pareceu-me também que organizava seus pensamentos. Logo continuou:
— Vocês têm uma carta maravilhosa na ONU. Os governantes deste país ratificaram-na, tornando-a válida em seu território, não é? Gostaria de lembrá-la, para avivar tua memória. No preâmbulo da Carta da Terra, no parágrafo Terra, Nosso Lar, consta: “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.”

Com a maré subindo, a água fria encontrou meus pés e tirou-me daquele torpor. Fiquei sem saber se dormi e sonhei com este diálogo, ou se foi minha imaginação instigada pela triste realidade da depredação. Restou-me uma pergunta e gostaria de dividir com você: o que podemos fazer pela preservação da vida silvestre em Ilha Comprida?

Cr 023 Porto de Iguape: o real e o imaginado


Na orla do canal do Mar Pequeno, próximo de onde hoje temos a Concha Acústica, vemos resquícios de um dos atracadouros do extinto e antigo Porto de Iguape. Duas baixas colunas feitas em pedra e dispostas em paralelos, recentemente restauradas, testemunham silenciosamente sua existência e seu uso em passado remoto. Tais ruínas históricas, preciosas provas históricas do porto que houve em Iguape, estão em nossa visão. Ao “desaparecimento” desse Porto de Iguape associam-se algumas causas, entre elas a diminuição da produção regional de arroz, a dificuldade que havia para se atingir o porto e o assoreamento do canal em razão da abertura do Valo Grande. O calado das embarcações aumentava e a profundidade do Mar Pequeno e de sua barra diminuía.

Circulam muitos rumores relativos à construção de um novo porto em Iguape. “Fato” comum entre eles é que tal porto atenderia ao excesso de demanda nos portos de Santos e Paranaguá. Porém, a lógica do capital é imperiosa; aporta apenas onde houver forte possibilidade de retorno financeiro. Se os custos de amortização dos investimentos e de operação, ainda que projetados, não seduzirem os investidores, tudo não passará de mera especulação. Em regiões com forte produção local ou com alto valor adicionado (refinamento de combustível e processamento de minérios, por exemplo), é natural que haja portos que são, na maioria das vezes, escoadouros daquela produção. Entretanto, sabemos o quanto é diminuta e de baixo valor comercial a produção do Vale do Ribeira. Lógico é supor que, para a operação de um porto que seja distante de zonas produtivas ou de alta rentabilização, haja fácil acesso a estradas, ferrovias e hidrovias, de tal forma compatíveis para o transporte das cargas entre as regiões produtivas e/ou consumidoras, visando atingir o porto.

Até o momento, não há qualquer manifestação formal pelos poderes públicos (em seus orçamentos) pela consecução de tal “projeto”, na parte que lhes seria de responsabilidade. Um caminho existente seria o uso de capitais exclusivamente privados; se desta natureza forem tais investimentos, por que não haveria sequer uma agência reguladora do governo ciente dos “estudos” e tampouco previsão legal, em regime de PPP - Parceira Público Privada? Poucas são as PPPs que estão “tomando forma”; e apenas porque, por enquanto, a legislação ainda é precária, pendente de regulamentação até mesmo em relação ao Governo Federal. O que dizer, então, quanto ao Estadual e Municipal?

Fator decisivo para a localização de um porto é a existência de canal com profundidade compatível com o calado dos navios que nele aportarão, além de formação geológica costeira adequada para dragagens periódicas e sucessivas. Tal manutenção, de forte impacto ambiental, acontece na maioria os portos existentes. Assim, e a mais, restrições ambientais existem e serão determinantes para tal “projeto”. O “assunto” tem sido tratado de forma sensacionalista, abordando as “vantagens” de um porto em Iguape, como se a redenção da economia local estivesse nesse “projeto”. Enfim, surgem “Salvadores da Pátria” com sabe-se lá quais interesses; o que se deduz, grosso modo, é que sejam apenas propagandas pessoais com finalidades político-eleitoreiras. Isto tem levado às pessoas mensagens equivocadas e irresponsáveis. Muitos acreditam que tal “projeto” está, efetivamente, em implantação. Neste caso, a PPP real é a aliança entre um grupo econômico com outros de “políticos”, sem ofensa aos que possam estar defendendo seriamente os reais interesses da população.

Havia uma ligação rodoviária entre os portos de Santos e Paranaguá, em projeto, nos mapas do início dos anos de 1980. Neles o traçado da BR-101 passava, após Peruíbe – partindo de onde hoje ela converge para a BR-116 – pela Juréia e Ilha Comprida, avançava por Cananéia e chegava a Paranaguá. Tal ligação entre o litoral teria facilitado o fluxo de pessoas e mercadorias. Muitas causas determinaram que tal projeto não fosse levado a efeito. Porém, entre os fatores relevantes temos a legislação que prevê total preservação da Juréia, justificada por ser aquele local um dos últimos resquícios intocados de Mata Atlântica, bem como o projeto das usinas nucleares de Iguape I e Iguape II. O Governo Federal chegou a obter financiamento e tecnologias alemãs para a construção; porém, com o fim do ciclo de governantes militares, em 1984, tanto os projetos das usinas nucleares quanto os de expansão de rodovias, tal como o trecho da BR-101 que por aqui passaria, permaneceram apenas em nossas lembranças.

Admitamos que seja real o divulgado interesse de conhecido grupo de investimentos portuários em construir um porto em Iguape, visando atender de forma complementar aos de Santos e Paranaguá. É natural supor que haja melhorias nas estradas; caso contrário, o custo de operação será demasiado alto, bem como o custo que restará para a sociedade. Na estrada Biguá-lguape, por exemplo, sequer temos acostamento pavimentado na maioria dos trechos; se for preciso parar um veículo, o desnível entre a pista e o acostamento de terra é alto e lhe provocará danos. Por outro lado, é duvidoso que ela comporte contínuo trânsito de caminhões com containers, sabidamente com altas tonelagens; com a sua deterioração, sairiam dos nossos impostos os recursos para a sua manutenção, enquanto o grupo investidor lucraria mais e mais na administração do imaginado “porto”? Ou tal grupo também realizaria investimentos e manutenção nas estradas? Quem pagará as contas, afinal?

Seguindo a moda local – sem pensar em quem pagará a conta –, aqui vai a sugestão para que haja a construção de uma ferrovia entre tais portos, a qual atenderia também a passageiros, além das cargas para o imaginado “Porto de Iguape”. Por enquanto, apenas em meus pensamentos, a ferrovia poderia nos integrar às economias mais dinâmicas de Santos e Paranaguá, tal como era previsto nos antigos mapas. A única diferença seria que, ao invés de rodovia, teríamos uma ferrovia interligando o Litoral Sul de São Paulo e o litoral norte paranaense.

No Plano Diretor do Município, recentemente promulgado, não há menção para atividade portuária. Sequer aconteceu pleito junto ao Governo Federal, em época própria, para criação de ZPE - Zona de Processamento de Exportações, onde o regime tributário foi um forte atrativo para que se instalassem pelo Brasil várias ZPEs, as quais foram “agraciadas” com inversões de capital público e privado.

A discussão nos remete a uma questão essencial para o desenvolvimento do Vale do Ribeira: até quando seremos um trecho “esquecido” do mapa do litoral brasileiro? Para tal pergunta, assusta-me que haja inúmeros boatos e raros fatos.

“Garçom? Traga a conta, por favor!” – Ao final das diversas rodadas e muito falatório, alguém terá que pedir! Ou sairemos todos em fuga?

507 Entre o céu e a terra

Entre o céu e a terra em solo rico eu vejo tais seres replandecentes A embelezar a vida e quem as vê posto que o belo a se apreciar enriquec...